<T->
          O meu amigo pintor

          Lygia Bojunga

<F->
Impresso Braille em volume 
nico na diagramao de 28 linhas por 34 caracteres, da 22 
edio, Editora Casa Lygia 
Bojunga LTDA, 2004.
<F+>

          Volume nico

          Ministrio da Educao 
          Instituto Benjamin Constant
          Av. Pasteur, 350-368 -- Urca
          22290-240 Rio de Janeiro
          RJ -- Brasil
          Tel.: (0xx21) 3478-4400
          Fax: (0xx21) 3478-4444
          E-mail: ~,ibc@ibc.gov.br~,
          ~,http:www.ibc.gov.br~,
          -- 2007 --
<P>
          Copyright 1987 (C) 
          Lygia Bojunga

          Assistente Editorial: 
          Vera Abrantes
          Produo: Roberto Gentile

          ISBN 85-89020-08-8

          Todos os direitos Reservados 
          Editora CASA LYGIA 
          BOJUNGA LTDA.
          Rua Eliseu Visconti, 425 -- Santa Teresa -- 20251-250, Rio de Janeiro -- RJ
          Tel.: (21) 2222-0266
          Fax: (21) 3852-2596
<F->
e-mail:  
~,comercial@casalygiabojunga.~
  com.br~,
~,www.casalygiabojunga.com.br~,
<F+>
<p>
                               I
CIP -- Brasil. Catalogao-
  -na-fonte Sindicato Nacional 
  dos Editores de Livros, RJ.

<F->
        Bojunga, Lygia,
B67~m   O Meu Amigo Pintor
22.ed.  /Lygia Bojunga ; 
        ilustraes Vilma 
        Pasqualini. -- 22.ed. 
        -- Rio de janeiro : Casa 
        Lygia Bojunga , 2004
        I20 p.: il.: I9  cm

        ISBN 85-89020-08-8

        I. Literatura infanto-
-juvenil. I. Pasqualini, Vilma. II. Ttulo.

04-0835.           CDD-028`.5
                     CDU-087`.5
<f+>
<R->
<P>
  Lygia Bojunga nasceu em Pelotas, no Rio Grande do Sul; ainda criana se mudou para o Rio; h vinte anos mora um pedao do seu tempo em Londres ( casada com um ingls) e considera o Rio de Janeiro o seu cho verdadeiro.
Trabalhou como atriz, tradutora e autora em rdio, teatro e televiso. Escreveu vinte livros. Teve tradues em dezenove idiomas. Foi a primeira escritora, fora do eixo Europa-Estados Unidos, a ganhar o Prmio Hans Christian Andersen, o mais prestigioso prmio internacional do gnero, conhecido como o Prmio Nobel da literatura voltada para crianas e jovens. Em 2002 Lygia publicou RETRATOS DE CAROLINA, inaugurando a Editora Casa Lygia Bojunga. A editora foi criada com a inteno de reunir na Casa os personagens da autora.
<p>
                             III
  Em abril de 2003 a Casa recebeu mais moradores: A BOLSA AMARELA, A CASA DA MADRINHA e CORDA BAMBA, trs dos livros de Lygia Bojunga que se tornaram clssicos da literatura infanto-juvenil brasileira. Depois veio TCHAU, nico livro de contos da autora. No comeo de 2004 chegou ANGLICA, obra de fico que tem num dos captulos uma pea completa de teatro, e que -- como os livros anteriores -- foi recipiente de importantes prmios. Em seguida a Casa recebeu OS COLEGAS, comemorando as cinqenta edies daquele livro, o primeiro escrito por Lygia Bojunga. Agora  a vez de O MEU AMIGO PINTOR, na sua vigsima segunda edio. A trajetria desta obra  contada por Lygia num texto recm-escrito: *Pra voc que me l*, que passa a fazer parte do livro que voc tem na mo.  
<p>
Obras da autora

<F->
<R+>
*Os colegas* -- 1972
*Anglica* -- 1975
*A Bolsa Amarela* -- 1976
*A Casa da Madrinha* -- 1978
*Corda Bamba* -- 1979
*O sof Estampado* -- 1980
*Tchau* -- 1984
*O Meu Amigo Pintor* -- 1987
*Ns Trs* -- 1987
*Livro, um Encontro com Lyra 
  Bojunga* -- 1988
*O pintor* (teatro) -- 1989
*Ns trs* (teatro) -- 1989
*Fazendo Ana Paz* -- 1991
*Paisagem* -- 1992
*Seis vezes Lucas* -- 1995
*O Abrao* -- 1995
*Feito  Mo* -- 1996
*A Cama* -- 1999
*O Rio e Eu* -- 1999
*Retratos de Carolina* -- 2002
<R->
<F+>

               ::::::::::::::::::::::::

  O comovente encontro de um adolecente com a alma atormentada de 
                               V
um artista. Para o menino, a des-
lumbradora revelao do mundo das cores, das formas; a interpretao da vida atravs da instituio e da experincia do artista. Para o pintor, a presena da ternura e do entusiasmo do jovem amigo na aventura dessas descobertas, o confronto daquela confiana no drama da sua solido.
  Traduzido em vrios idiomas, O MEU AMIGO PINTOR foi teatralizado por Lygia Bonjunga e levado  cena por Bia Lessa, arrebatando os dois mais importantes prmios teatrais da poca: 
 PRMIO MOLIRE e PRMIO MAMBEMBE.
  Lygia Bojunga acaba de ganhar com sua obra o maior prmio internacional jamais institudo em prol da literatura para crianas e jovens: *ALMA ASTRID LINDGREN MEMORIAL AWARD*, criado pelo governo da Sucia.
<8>
<p>
<TMeu amigo pintor>
<T+1>
Sexta-feira

  Eu no sei se eu j nasci desse jeito ou se eu fui ficando assim por causa do meu amigo pintor, mas quando eu olho pra uma coisa eu me ligo logo  na cor.
  Gente, casa, livro,  sempre igual: primeiro eu fico olhando pra cor do olho, da porta, da capa; s depois eu comeo a ver o jeito que o resto tem.
  Um dia o meu amigo me disse que eu era um garoto com alma de artista, e me deu um lbum com uns trabalhos que ele tinha feito em aquarela, tinta a leo e pastel. Disse que tinha arrumado os trabalhos no lbum pra eu entender melhor esse negcio de cor. Nas primeiras pginas s tinha cor. Quer dizer, no princpio nem cor tinha: era s branco e preto; depois comeavam as cores: amarelo, azul, vermelho, e 
<9>
depois essas trs cores iam se misturando pra formar uma poro nuns desenhos que s vezes eu gostava e outras vezes no.
  O meu amigo me disse que quanto mais a gente prestava ateno numa cor, mais coisa saa de dentro dela. Eu fiquei olhando pra cara dele sem entender. No entendi mesmo aquela histria de tanta coisa ir saindo de dentro de uma cor.
  Mas hoje teve uma hora que eu no estava a fim de olhar pra cara de ningum. Ento abri o lbum que ele tinha me dado. S pra poder ficar olhando pra cada cor e mais nada. Olhei, olhei, toca a olhar. E de repente eu entendi direitinho o que ele tinha falado! Me deu uma vontade danada de ir l em cima dizer:
  Saquei o que voc me disse naquele dia! estou entendendo demais esse preto; te juro que me deu um estalo e eu estou entendendo o jeito que esse amarelo pegou.
  S que no deu pra falar com o meu amigo pintor; ele morreu. Hoje est fazendo trs dias que ele morreu.
<10>
  O meu amigo mora, quer dizer, morava, no apartamento aqui em cima. Eu ia l jogar gamo com ele, a gente conversava, e ele tinha um relgio de parede que batia hora e meia-hora tambm. O meu pai e a minha me reclamavam , mas que coisa mais enjoada essa bateo! e a minha irm me perguntava ser que o teu amigo nunca vai se esquecer de dar corda no relgio, no? 
  Mas cada um  de um jeito, no ? e eu gostava demais de ouvir o relgio batendo. De noite ainda mais.
  No era s porque ele batia bonito.
  Nem era s porque eu acho legal viver ouvindo que horas so.
  Era porque, cada vez que ele batia, eu pensava: o meu amigo t l.
  Pra mim, ouvir o relgio batendo era que nem ouvir o meu amigo andando. Ou falando. Ou rindo. Ser que d pra entender o que eu quero dizer? Porque ele era um cara quieto demais, tinha mania de s fazer 
<11>
coisa que no faz barulho: fumar cachimbo, pensar, pintar; se no fosse o relgio batendo, puxa vida! ia at parecer que ele nem vivia l.
  Mas no era isso que eu queria contar. Eu queria era dizer que na tera-feira quando cheguei da escola, eu fiquei sabendo que ele tinha morrido. Fui l. No agentei olhar pra ele assim morto: virei a cara pra parede e dei de cara com um quadro que ele tinha pintado: uma mulher amarela. (Um dia ele me disse que ela estava assim toda amarela porque ela tinha acordado contente, e eu -- que ainda no sacava nada de cor -- fiquei achando que era birutice de pintor.)
  No deu pra ficar l em cima; voltei correndo pro meu quarto.
  De repente, comecei a me sentir todo escuro por dentro. To escuro que no dava pra enxergar mais nada dentro de mim. 
  Mas nessa hora o relgio comeou a bater.  bea. Porque era meio-dia. E se algum perguntar que cor que tinha a batida eu respondo correndo, amarela!! 
<12>
 que eu fiquei igualzinho ao meu amigo Pintor: dei pra achar que amarelo  uma cor contente. E era to bom ouvir aquele meio-dia! cada batida que o relgio ia batendo dava mais a impresso que todo mundo tinha se enganado e que o meu amigo continuava vivinho l em cima.
  E a, tinha o aniversrio da minha prima. Mas eu no fui.
  Tinha um bate-bola na escola. Mas eu no fui.
  Tinha um livro que eu estava gostando. Mas eu nem quis mais ler.
  S pra ficar aqui. Escutando o relgio bater.
  E ele bateu. No princpio amarelo forte. Mas depois o amarelo foi ficando mais fraco; cada vez mais fraco. O relgio estava perdendo corda e era por isso que a batida se arrastava com aquele amarelo cada vez mais desanimado, cada vez mais esbranquiado.
  Hoje ficou tudo branco: o relgio no bateu mais.
  Que vontade! que vontade de ir l dar corda nele.
<13>
  A porta est trancada.
  -- Quem  que ficou com a chave?
  -- A tal Clarice.
  -- Mas a corda do relgio acabou.
  -- Ela levou a chave.
  -- Mas o relgio...
  -- Ela diz que volta aqui.
  -- Mas e o relgio?
  De noite, quando fui dormir, fiquei esperando, esperando.
  Nada. S aquele branco todo. Eu nunca pensei que silncio fosse assim to branco. E a, sim, eu vi mesmo que o meu amigo tinha morrido e que branco doa mais que 
<p>
preto, amarelo nem se fala!, doa mais que qualquer cor.

               ::::::::::::::::::::::::
               
Segunda-feira

<16>
  Pra mim, vermelho  cor de coisa que eu queria entender.
  Uma vez (isso foi no ano re-
 trasado, eu ainda ia fazer nove anos) a minha prima veio aqui com uma colega que se chamava Janana e que 'tava toda vestida de vermelho. O vestido tinha manga grande, era muito mais comprido que o vestido que a minha irm e a minha prima usavam, e sem nada de outra cor: s aquele vermelho que todo mundo na sala ficou olhando. E aqui na testa, feito jogador de tnis, a Janana botou uma tira do vestido que ela estava usando.
  A eu fui e me apaixonei por ela.
  E de noite eu falei no jantar:
  -- Eu estou apaixonado pela Janana.
<17>
  Todo mundo achou que eu estava fazendo graa; e a minha irm disse que a Janana tinha quinze anos.
  -- E da? por que que eu no posso me apaixonar por uma mulher mais velha?
  -- Imagina! -- e todo mundo riu.
  Achei melhor no dizer mais nada. Mas continuei apaixonado. Quer dizer, eu *acho* que era paixo; eu no tinha bem certeza, mas cada vez que eu pensava na Janana (e eu pensava nela o tempo todo) eu sentia dentro de mim uma coisa diferente que eu no entendia o que que era, mas que era vermelha, porque  claro que eu s pensava na Janana vestida naquele vermelho todo.
  Um dia, a minha prima veio outra vez a Petrpolis com a Janana. Meu corao quase saiu pela boca quando eu ouvi a minha me falando:
  -- Ol, Janana.
  Corri pra sala. Nem deu pra acreditar: a Janana estava de cala azul e blusa branca! E na testa, em vez da tira, uma franja.
<18>
  Quanto mais eu olhava pra Janana mais eu ia me desapaixonando. Quando ela saiu eu fui l em cima e contei pro meu Amigo Pintor (acho que  melhor escrever o meu amigo com letra maiscula) tudo que tinha acontecido. Ele acendeu o cachimbo, ficou olhando pela janela feito coisa que no ia mais parar de olhar, depois falou:
  -- Vermelho  mesmo uma cor complicada. 
  E pronto. Porque ele era assim: no gostava de falar se ele no tinha vontade. Mas quando tinha, a coisa que ele mais curtia era falar de arte. Entre uma partida e outra de gamo (uma vez ele disse pra minha me que jogar gamo comigo fazia bem pra cuca dele) ele me mostrava livro de pintura, contava caso de artista, e muitas vezes eu no entendia a pintura que ele mostrava.
  -- Mas gostou? -- ele perguntava.
  -- Gostei.
  -- Ento pronto. Mais tarde voc entende. Ou no.
<19>
  Nessas horas eu olhava pro meu Amigo e no era s a pintura que ele estava mostrando que eu no entendia: eu no entendia era ele tambm.
  Acho que  por isso que eu olho tanto pro vermelho que ele pintou aqui no lbum. Pra ver se eu entendo.
  Pra ver se eu entendo.
  Pra ver se eu entendo por que que tem gente que se mata.
  S depois que o relgio parou de bater e ficou esse branco todo a em cima onde o meu amigo morava, s depois que eu chorei  bea de ver o corpo dele passando a no corredor do prdio e da minha me dizendo que criana no precisa ir a enterro nenhum e eu no indo,  que uma garota que mora no trreo chegou perto de mim e falou:
  -- O teu Amigo Pintor foi pro inferno.
<20>
  Levei um susto to grande que a fala nem saiu logo. Ela disse:
  -- Ele se matou. E diz que quem se mata vai pro inferno.
  A minha fala desempacou:
  -- Quem diz que ele se matou?
  -- T todo mundo falando. Ele deixou uma carta explicando.
  -- Cad?
  -- No foi pra gente, no.
  -- Foi pra quem?
  -- Pra uma amiga dele, aquela que vinha a.
  -- A Dona Clarice?
  -- .
  -- E o que que ele explica na carta?
  A garota s fez assim com o ombro e disse com cara de quem no t ligando:
  -- A essas alturas ele j torrou no inferno igualzinho feito o frango que a minha me esqueceu no forno.
<21>
  Empurrei o diabo da garota longe e vim m'embora.
  Mas hoje, sem estar esperando nem nada, aconteceu uma coisa que mudou o jeito vermelho que eu estava sentindo dentro de mim.  que eu esbarrei na porta do elevador com a Dona Clarice. Ela ia saindo e eu ia entrando. Fiquei to afobado que em vez de dizer bom dia, eu perguntei:
  -- Ele explica na carta por que que ele se matou?
  Puxa vida! eu nunca pensei que uma pergunta assim to horrvel podia sair sem a gente ter tempo de segurar. Mas saiu. E a Dona Clarice ficou parada, de porta do elevador aberta na mo e de olho arregalado pra mim. 
  Eu fiquei to sem jeito que eu quis sumir.
  Ainda bem que tocaram a campainha do elevador: a Dona Clarice feito que acordou; largou a 
<22>
porta e passou a mo pela testa com um jeito nervoso. De repente fez cara de quem lembrava de uma coisa e me estendeu um embrulho que estava debaixo do brao. O meu Amigo Pintor tinha escrito assim no embrulho: Para o meu parceiro de gamo.
  -- Eu ia pedir pro porteiro entregar isso a voc -- ela falou. A ela ficou olhando pro cho e depois disse baixinho: -- Ele no se matou, no. Ele morreu que nem... que nem todo mundo um dia morre. -- E disse tchau, e saiu depressa.
  Eu fiquei olhando pra letra do meu Amigo no papel do embrulho. Mas depois lembrei do relgio e sa correndo: puxa! se ela tinha a chave do apartamento bem que ela podia voltar e dar corda no relgio.
  Mas ela j tinha sumido na rua.
  Abri o embrulho. Era o tabuleiro de gamo (ele dobra no meio e fecha que nem caixa pra guardar pedra e dado dentro). Achei to bom o meu Amigo ter mandado ele pra mim. Mas melhor, muito melhor 
<23>
que o tabuleiro, foi o que a Dona Clarice falou olhando pro cho.
  Pra mim, morte tambm  coisa vermelha, coisa difcil de entender. Mas se ela vem feito ela vem pra tanta gente todo dia, a fica mais fcil um pouco de sacar.
  Ento, eu vim pra casa com aquela frase voltando sempre na minha cabea: ele morreu que nem todo mundo um dia morre. E a aconteceu uma coisa que eu achei bem legal: foi nascendo um amarelo l dentro do meu vermelho.

               ::::::::::::::::::::::::

Tera-feira

<26>
  Hoje eu ia saindo do banho quando ouvi o sndico entrando (ele  o pai da filha daquela me que esqueceu o frango no forno); mais que depressa eu corri pro meu quarto e fechei a porta. No era pra ele no me ver nu, no; era porque, pra ser franco, eu no curto aquele sndico. Uma vez ele disse que pintor que pinta mulher amarela  porque no sabe pintar mulher como ela .
  Tipo do cara que no saca nada de arte, no ?
  Outra vez, eu estava l em cima jogando gamo e a tocaram a cam-
 painha. Quando eu abri a porta dois caras disseram que eram da polcia e me mandaram embora: queriam ficar sozinhos com o meu Amigo pra interrogar ele. Depois a gente ficou sabendo que o 
<27>
sndico tinha ido na polcia dizer que o meu Amigo estava morando aqui no prdio.
  Tipo do cara que no saca nada de cada um na sua, no ?
  E ainda por cima, sempre que esse sndico aparece aqui em casa, ou  pra fazer queixa de algum do edifcio, ou  pra arrastar o meu pai e a minha me pra reunio de condomnio (que eles detestam).
  Ento eu achei melhor ficar bem quieto aqui no meu quarto.
  Mas l pelas tantas eu ouvi o nome do meu Amigo e comecei a prestar ateno na conversa da sala. Tive que abrir a porta pra escutar o meu pai: ele estava falando de suicdio, e cada vez que ele e a minha me falam nisso eles baixam a voz. O sndico no: ele tem um vozeiro que, nossa senhora! at o cochicho dele  um cochicho que a gente ouve l da esquina. E ento ele foi cochichozando que o meu Amigo tinha ficado marcado por causa das idias polticas dele (eu no entendi nada do que isso queria 
<28>
dizer) e, quem sabe, ele tinha se matado por causa disso?
  -- Ser que ele achava que ia ser preso de novo? -- a minha me perguntou.
  E a comeou: poltica pra c, poltica pra l.
  No agentei mais ficar quieto: fui l na sala e falei:
  -- A Dona Clarice disse que o meu Amigo morreu feito todo mundo um dia morre. No foi de propsito no!
  -- Ela tinha que dizer isso no tinha? -- o sndico falou.
  Respondi olhando pro meu pai:
  -- Ela conhecia ele melhor que ningum, e ela me garantiu que no foi de propsito.
  -- Ela tinha que dizer isso -- o vozeiro falou de novo -- pra ningum ficar pensando que foi por causa dela que ele se matou. 
  Eu no parava de olhar pro meu pai; e o meu pai no parava de olhar pra mim.
<29>
  -- Mas por que que ele ia fazer isso? -- eu perguntei.
  -- Porque ele estava doente, meu filho.
  -- Doente? A gente jogou gamo na vspera. Trs partidas. Uma atrs da outra. E ele no tinha nada!
  -- Doente *aqui* -- o meu pai bateu na cabea --; s uma pessoa que est muito doente *aqui* faz o que ele fez.
  -- Mas voc quer, por favor, me explicar direito tudo que aconteceu?
  A a minha me disse que eles j estavam atrasados pra reunio de condomnio. Eu fiquei nervoso:
  -- Mas ele era meu amigo!
  O sndico levantou:
  -- Vamos indo?
  -- Amigo pra valer! Ele mesmo falou que idade no contava pra gente ser amigo sincero. E eu vou ficar sem saber se foi mesmo de propsito que ele morreu?
  A minha me me abraou:
<30>
  -- Voc no tem mais que ficar pensando nisso, Cludio. Na sua idade a gente tem que pensar na vida e no na morte. Voc tem outros amigos...
  -- Que eu no gosto feito eu gostava dele!
  -- ... voc tem tanta coisa pra estudar, pra brincar, pra inventar, pra de ficar pensando no que aconteceu com ele e toca a vida pra frente, meu filho! -- Foi saindo e eu fiquei. E fiquei no ar ainda por cima. Voltei pro quarto. Achei que o meu pai estava com mais cara de verdade do que a Dona Clarice. No  porque ele era meu pai, no: era pelo jeito dele olhar tanto no meu olho e dela olhar tanto pro cho.
  Mas certeza eu no tenho. E fico pensando: ser que foi mesmo?
  E se foi mesmo, foi por qu?
  Ele gostava tanto de pintar, de jogar gamo, de comer, de pensar, ele gostava do relgio tocando e se via uma flor l embaixo logo debruava na janela pra me dizer, olha que coisa bonita.
  E ele vai e acaba com tudo isso que era to bom?
<31>
  Se na hora de debruar pra ver a flor ele caa da janela; se na hora de comer ele se engasgava e sufocava; ou se ele ento tivesse ficado bem velho; mas assim? resolvendo ele mesmo? eu vou me acabar  agora?
  Por que, por que, por qu?!
  O tabuleiro de gamo estava aberto (hoje era dia da gente jogar); e o lbum que ele tinha me dado tambm aberto numa aquarela que mostrava um barco amarelo afundando num mar cor de... que cor era aquela?
  No era bege.
  Nem era marrom fraquinho.
  Quase que podia ser uma cor que o meu Amigo gostava e que ele chamava de siena. Mas tambm no era.
  No tinha cor-de-rosa nem de laranja, o que que era ento?
  A eu inventei que era cor-de-
 -saudade e pronto.
  Na pgina do lado, pra mostrar como  que as cores mudam, o meu Amigo desenhou outra aquarela:
<32>
depois de afundar no mar cor-de-
 -saudade o barco aparece de novo, mas a, com aquele banho, o amarelo dele ficou diferente, esquisito, com uma cara que eu no gosto nada e que eu vou at chamar de amarelo-sndico.
  Quanto mais eu olhava pr'aquele barco, mais eu achava que a Dona Clarice tinha mentido pra mim. E quanto mais eu achava, mais o meu amarelo tambm ia ficando com cara de sndico, e mais eu ia me sentindo feito o barco: todo rodeado de cor-de-saudade.
  Uma cor-de-saudade que ia at se avermelhando de tanto que eu estava achando tudo difcil de entender.
  Quer dizer ento que a Dona Clarice tinha mentido pra mim (mas por qu?!) 
  Ento tinha sido mesmo uma morte de propsito. Mas por qu??
  E por que que quando  assim todo mundo faz mistrio? E fala baixo? E fica at parecendo que suicdio  palavra feito palavro; por qu?!
<33>
  Se um cara vai preso porque matou, porque roubou, a gente assim da minha idade fica sempre por dentro; por que ento se dizem ele  um preso poltico, gente da minha idade nunca entende direito o que que isso quer dizer, por qu?
  E quanto mais por-que-por-que ia aparecendo, mais de sndico o meu amarelo ficava, e mais cor-de-
 -saudade crescendo!
  Tambm, com esse branco todo do relgio que no bate, e com esse tabuleiro de gamo aqui parado, me olhando com cara de que hoje era dia da gente jogar,  claro que a saudade s tem que aumentar. Se continua assim crescendo eu nem sei no que que vai dar.

               ::::::::::::::::::::::::

Quinta-feira

<36>
  No meu lbum tem uma pintura que  toda cor-de-saudade, e na frente tem trs pessoas: uma branca e duas azuis. A cara delas  meio apagada, e quantas vezes eu fiquei pensando se era cara de homem ou de mulher. 
  Bem que eu queria saber o que que o meu Amigo estava pensando quando pintou essas trs figuras. Queria saber pra comparar. Porque ontem eu sonhei com elas. Mas acordei atrasado e sa correndo (a gente est ensaiando uma pea de teatro l na escola e tinha ensaio de manh). (**) E quando o ensaio acabou eu tinha me esquecido do sonho. S me lembrava das cores e das trs figuras, mas no sabia mais o que que tinha acontecido.
  Coisa esquisita que  sonho; a gente acorda com aquele monto de coisa acontecida dentro da gente e logo depois, puf! esquece.
  Resolvi esperar pra ver se lembrava de novo. Mas no lembrei.
  De tanto eu querer lembrar, esta noite eu sonhei outra vez da mesma cor e com as trs. Agora eu 
fico sem saber se  repetio ou no do primeiro sonho.
  Pacincia, deixa eu contar logo o segundo antes dele sumir tambm.
 :::::::::::::::::::::::::::::::::
<R+>
<F->
     (**) Depois que eu aceitei fazer parte da pea eu me arrependi: eu no quero ser ator: eu sou meio envergonhado; o que eu quero  ser pintor.  
<F+>
<R->
  A cortina era cor-de-saudade. Eu estava no teatro olhando pra ela, e quando ela abriu o palco estava vazio, no tinha cenrio, nem cadeira, nem nada.
<38>
  Mas o palco era todo da cor da cortina, e quem sentava na platia ficava ento s olhando pra saudade e mais nada.
  O relgio comeou a bater bonito.
  Contei doze pancadas.
  No dava pra saber se era meio-
 -dia ou meia-noite: a cor no ficou nem mais de noite nem mais de dia.
  E depois que o relgio parou de bater as trs figuras entraram no palco. Do mesmo tamanho, as trs andando bem junto, uma branca e duas azuis; e foi s olhar pra branca que eu vi logo que era o meu Amigo Pintor fazendo o papel de fantasma. E, sabe, fiquei aflito.
  As outras duas figuras eu no sabia que papel elas iam fazer. Mas elas eram azul to vivo, to forte, que jogavam um brilho no palco e faziam a cor da saudade ficar mais forte. E mais forte dentro de mim tambm.
  A, olhando pro meu Amigo virado fantasma, e sentindo e vendo aquela saudade-forte, eu no agentei: desatei a chorar. 
<39>
  Um choro alto toda vida.
  Todo mundo na platia comeou a fazer:
  -- Psiu!
  -- Psiu!
  -- Psiiiiu. -- E eu chorando cada vez mais alto. Nossa! que vexame.
  O meu Amigo tinha ficado parado no palco. Ele e as outras duas. Sem se mexer nem dizer nada.
  O pblico foi perdendo a pacincia, comeou a bater palma, a bater p, assobiou. E nada da representao comear.
  Eu fui achando aquilo to esquisito que parei de chorar. Olhei pro meu Amigo. Ele tirou a mo do bolso (eu estava sentado bem atrs, mas deu pra ver que a mo era mesmo dele: estava suja de tinta e segurando um pincel) e me chamou com o pincel.
  A platia parou de bater p, de assobiar; me olhou. Eu levantei e fui indo pro palco. A minha perna tremia tanto que mal dava pra andar. No sei se era 
<40>
vergonha de ver todo mundo ali me olhando ou se era medo de chegar perto do meu Amigo assim to virado fantasma. Mas cheguei. E a ele cochichou pra mim:
  -- E agora, Cludio?
  -- Agora o qu?
  -- Eu no sei representar fantasma, o que que eu fao? eu no sei o que que eu digo.
  O meu corao pulou. Cochichei superbaixo:
  -- Mas voc no ensaiou a pea?
  Ele fez que no.
  -- No decorou o papel?
  -- No deu tempo. Eles me botaram nessa roupa, me empurraram aqui pro palco, disseram agora voc  um fantasma, e pronto.
  -- Xi!
  O pblico desatou de novo a bater p.
  -- Diz pra elas representarem -- eu cochichei.
  -- Quem?
  -- Essas duas a do teu lado.
<41>
  -- J disse. Elas falaram que so coro.
  -- So o qu?
  -- O papel delas  comentar a minha histria. Se eu no conto a minha histria elas no tm nada pra comentar.
  -- Nossa!
  -- E agora, Cludio? o que que eu digo, o que que eu fao? olha, t todo mundo esperando, 'to comeando a vaiar.
  -- Vai embora! diz que voc no quer ser fantasma.
  -- No posso.
  -- Por qu?!
  -- T preso: costuraram a minha roupa na roupa delas.
  Fui pra trs do meu Amigo pra ver se descosturava o branco do azul sem ningum perceber. Quem diz?
  -- No  costura! -- eu falei --  pintura.
  -- Ah, ento no vai dar pra separar.
<42>
  Comeou uma reclamao danada na platia; uma poro de gente gritando como ? essa pea comea ou no comea?
  O meu nervoso ficou de um jeito que eu comecei a chorar de novo. O meu Amigo se apavorou:
  -- No  hora de chorar,  hora de me ajudar! Me ajuda, me ajuda!
  Eu tinha que inventar uma coisa correndo pra salvar o meu Amigo. Respirei fundo feito a gente faz quando mergulha, fui pra frente do palco -- e comecei a cantar o hino nacional.
  O pblico parou de gritar. Comeou a cantar junto. Enquanto isso ia dando tempo pra pensar o que que eu ia dizer.
  O hino acabou. Todo mundo bateu palma. Eu falei:
  -- Distinto pblico, ateno: eu vou contar pra vocs a histria deste fantasma.  uma histria curta porque ele  um fantasma recm-morrido. Ele virou fantasma pelo seguinte: ele se enganou de tempo de 
<43>
morrer. Eu nunca pensei que isso pudesse acontecer. Mas aconteceu. Era pra ele morrer s quando ele fosse velhssimo, mas ele era um artista, era um pintor (olha s o pincel na mo dele), tinha a mania de viver pensando em cor. Acordava, e em vez de dizer feito todo mundo, eu estou triste, eu estou contente, ele falava:

<F->
hoje eu estou roxo
hoje eu fiquei to amarelo!
hoje eu acordei meio roxo, 
mas fui amarelando l pro fim da 
  tarde.
<F+>

  Pra ele, a coisa que tinha mais cor-de-morte era nevoeiro. s vezes, quando fazia cu azul de ma-
<P>
nh mas de tarde comeava uma nvoa, ele dizia:

<f->
hoje fez vida de manh, 
mas agora t fazendo 
um pouco de vontade 
de morrer.
<f+>

<44>
  E ento, um dia desses, fez um nevoeiro forte toda vida. O Pintor espiava pela janela do apartamento dele, s via aquele nevoeiro tapando tudo que  cor e falava feito costumava falar: hoje t fazendo um pouco de vontade de morrer.
  Nevoeiro assim forte quase sempre passa logo. Mas dessa vez no passou: era um nevoeiro comprido, que durou a tarde toda e a noite inteirinha tambm. A toda hora o Pintor espiava na janela. E nada da vontade de morrer acabar. Foi por isso que ele se enganou: achou que a vontade nunca mais ia passar e ento resolveu matar a vontade.
  Tipo do engano sem jeito: no dia seguinte amanheceu um cu azul bonito mesmo.
  Mas a o Pintor j tinha virado fantasma.
  Foi s acabar a histria do fantasma que eu virei disfarado pra azul mais perto e cochichei:
<45>
  -- Pronto, a histria ta. Comenta. Fala. Diz qualquer coisa. 
  Pra qu as duas me olharam danadas da vida e a azul mais forte cochichou:
  -- A gente no se engana feito ele no: a gente decora papel, ensaia pea, sabe tintim por tintim do que tem que dizer.
  -- Ento diz!!
  -- Mas o que a gente decorou pra comentar no tem nada que ver com essa histria que voc contou! -- E ficaram supertrombudas e supersem abrir a boca.
  O pblico desatou a reclamar de novo.
  Um cara levantou e perguntou:
  -- Quer fazer o favor de explicar o que que esses atores esto fazendo a parados que no representam nem nada? 
  Me deu um estalo e eu respondi:
  -- Eles 'to representando um quadro vivo.  isso! Ser que o senhor no percebeu no? Eles vieram aqui mostrar um quadro desse Pintor. E quadro  pra gente 
<46>
olhar e no pra escutar. -- E quando eu ia ficando aliviado, o chato me perguntou:
  -- Ento por que que voc contou a histria do fantasma?
  No deu outro estalo: empaquei.
  O meu Amigo me soprou:
  -- Diz que  porque t fazendo um nevoeiro muito forte e que  pra eles tomarem cuidado e no se enganarem feito eu.
  --  porque t fazendo um nevoeiro muito forte e  pra vocs tomarem cuidado e no se enganarem feito eu, quer dizer, feito ele.
  E a eu acordei.
  Tambm, com aquele cara ali me 
<P>
apertando e todo mundo me olhando, no dava mais pra agentar.

               ::::::::::::::::::::::::

Sbado

<48>
  Eu tenho um colega na escola, sabe, e a gente  amigo. S que no  amigo toda a vida, do jeito que eu era do meu Amigo Pintor (tem dias que eu fico pensando se d pra ter mais de um amigo toda a vida), e ontem no recreio a gente conversou de corao.
  Tudo comeou porque eu estava desenhando um corao; s que, em vez do corao ser vermelho, ele era marrom; e em vez de ser feito corao que a gente conhece, ele era todo achatado assim pro lado e acabava de repente, deixando a gente sem saber que fim que ele levava.
  Quando eu terminei o desenho, eu mostrei ele pro meu colega.
  -- Que que  isso?
<49>
  -- Ora, ta.
  -- Ta o qu?
  -- Mas no d pra ver o que que ?
  -- No.
  -- Ento adivinha, u.
  -- Sei l.
  -- O meu corao.
  Ele olhou e olhou.
  -- Ainda no t vendo no? -- eu quis saber.
  -- Eu no! Pra comear, corao  vermelho.
  -- Bom, mas esse  o *meu* corao.
  -- E da? porque  teu no  vermelho?
  -- No  isso.  que eu ando chateado e ento o meu corao t assim desse jeito, parecendo que levou um soco e se achatou todo pro lado.
  -- Soco?
  -- E corao vermelho  corao de todo dia. O meu no est que nem todo dia, ele t diferente; ento tem que ser de outra cor. Tem ou no tem?
  O meu colega olhou pro papel. Olhou pra mim:
<50>
  -- No pode. Tem que ser vermelho. E tem que ser pontudo em-
 baixo. Me d aqui o papel pra eu te mostrar como  que .
  -- 'Pera a! voc no t me entendendo. Acontece que...
  -- Me d o papel, deixa eu desenhar isso direito.
  -- Quer fazer o favor de escutar o que eu estou te explicando? Se o meu corao t diferente, todo ruim, todo chateado, eu no vou desenhar ele feito aquele corao que todo mundo desenha pra namorada, no ? 'Pera a! no puxa.
  Mas ele puxou. E tirou do bolso uma caneta vermelha e foi mudando toda a cor do meu corao. E fez ele embaixo bem pontudo. E ainda por cima lembrou:
  -- Corao tem que ter seta!
  Tacou uma seta no meio. Foi corrigindo de um lado, corrigindo do outro, no deixou mais o meu corao ficar nem um tiquinho esborrachado, e eu, de burro, ainda quis explicar!
<51>
  -- Mas eu estava te dizendo que ele se esborrachou de chateao.
  -- Pois se ele t chateado diz logo, cara! -- e puxou outra seta pra cima e escreveu: Estou esborrachado porque estou chateado. -- Pronto! agora todo o mundo entende. -- E me deu o corao de volta.
  A eu no agentei e disse, pra que que eu quero essa porcaria? e a ele falou, porcaria  aquele negcio que voc desenhou; e a ele viu a Denise (uma garota que ele acha o mximo); arrancou o corao da minha mo e onde tinha escrito eu estou chateado ele botou dois pontos e rabiscou bem grande: VOC NO OLHA PRA MIM!! Saiu correndo, deu o meu corao pra Denise e foi jogar bola.
  Ah.
  Melhor.
  O que que eu ia fazer mesmo com um corao que j no tinha nada que ver com o meu?
<52>
  Eu acho que vai custar muito tempo pra arranjar um amigo que saque tambm esse negcio de esborrachar e amarronzar corao.

               ::::::::::::::::::::::::

Domingo

<54>
  De tudo que eu conversava com o meu Amigo, tem duas coisas que eu lembro mais. No sei por qu. A primeira  um papo que a gente teve num domingo. Tava chovendo. A gente tinha acabado de jogar. O meu Amigo levantou, acendeu o cachimbo, comeou a preparar umas tintas, e ento conversou de amor.
  Amor de trabalhar. De pintar. Amor de homem e de mulher, de pai, de me, amor de cidade-
 -de-pas-e-de-mundo onde a gente mora, amor de filho, de amigo.
  -- Amor assim feito a gente tem um pelo outro -- ele falou.
  O meu corao pulou.
<55>
  Toda vida eu gostei do meu Amigo assim... assim bem grande; mas eu sempre pensei que ele gostava menor de mim. No sei se porque eu era criana e ele no; ou se porque ele era um artista e eu no; s sei que quando ele falou de *amor* o meu corao pulou daquele jeito: ser que ento a gente se gostava igual?
  Quis logo ver se era mesmo:
  -- Como  que voc gosta de mim?
  -- Depende. Tem dias que eu gosto feito pai. Fico com pena de voc no ser meu filho, de no poder dizer: fui eu que fiz esse garoto legal! -- Meio que riu. Depois ficou srio, sentou em frente do cavalete e comeou a pintar. -- Mas a, no outro dia, eu no tenho nenhuma vontade de ser teu pai: quero s ser teu amigo e pronto. -- Pintou mais um bocado. -- s vezes eu gosto de voc porque voc  o meu parceiro de gamo; outras vezes porque eu tinha vontade de ser voc, quer dizer, de ser criana de novo. Ento  isso: cada dia eu gosto de voc de um jeito. E se a gente junta tudo que  jeito v que gosta bem grande, v que  amor.
<56>
  Achei to bom ele falando de gostar assim de mim que fiquei ali parado sem dizer mais nada, s olhando ele pintar. Mas l pelas tantas eu no resisti:
  -- Voc acha que a gente  parecido?
  -- De cara no; de jeito, . Jeito de ficar quieto, jeito de espirrar sem estar gripado, jeito de olhar pras coisas. Tive muito amigo grande, mas nenhum de jeito to parecido comigo feito voc.
  -- , mas com amigo grande voc pode conversar coisa que no conversa comigo.
  -- Por exemplo?
  Eu estava doido pra dizer que ele no conversava da Dona Clarice comigo. Mas achei que ia ficar chato. S sacudi o ombro e fiquei olhando pro pincel. Era um canto da sala que ele estava pintando. Cadeira. Mesa. Lmpada. Mas a ele comeou a pintar um pedao de mulher. Eu digo um pedao porque ele resolveu pintar a mulher bem no lugar onde a tela acaba.
<57>
  Fiquei grilado com aquela mulher to-s com uma perna s, uma tripinha do vestido e um pouco de cabelo (o resto dela sumia pra fora do quadro).
  Eu sei que pintor gosta de pintar coisa diferente. E eu j tinha aprendido que pintar bem no precisa ser pintar tudo certinho feito fotografia mostra. Ento no foi porque a mulher sumia do quadro que eu grilei. Foi porque, mesmo com to pouquinho dela aparecendo, ela tinha o mesmo jeito de tudo que  mulher que o meu Amigo pintava.
  A sala estava cheia de quadros que ele ia pintando e pendurando; uma poro com mulher. Sa olhando cada uma. S pra ter certeza do que eu estava pensando. E era mesmo! a mulher podia ser gorda, magra, preta, branca; podia ter olho e nariz e boca, e podia ter s uma mancha na cara como ele gostava de pintar, mas tinha sempre o mesmo jeito, e tinha sempre um pedao amarelo tambm.
  -- Por que que tudo que  mulher que voc pinta tem um jeito igual?
<58>
  Ele continou pintando; custou pra responder:
  -- Tem uma mulher que mora no meu pensamento, sabe; eu nem vejo quando ela sai da minha cabea e entra na minha pintura.
  Eu perguntei sem nem pensar:
  --  a Dona Clarice? -- e ele respondeu na hora:
  -- . -- Mas a ele parou de pintar. Levantou. Ficou olhando pra um quadro; pra outro. Acabou dizendo: -- Mas no era pra sair assim sempre igual. O amarelo, sim, eu fao de propsito. Amarelo pra mim  tambm cor-de-Clari-
ce, e eu gosto de botar um pouquinho dela em tudo que eu fao.
  -- Um pouquinho s? olha essa aqui: ela  toda amarela.
  --  que essa era a Clarice mesmo (num dia de alegria). Mas essas outras aqui, no. Se eu fosse um bom pintor, mesmo com a Clarice morando no meu pensamento, eu pintava cada mulher do jeito que ela , e no assim sempre igual.
  -- Mas voc  um bom pintor!
<59>
  -- No! no, eu no sou. Eu sei muito bem como  que se pinta; eu tenho tcnica; trabalho e trabalho pra ver se eu dou vida aos meus quadros. Mas no adianta: so telas mortas. -- Foi apontando com o pincel: -- Olha. Olha! Olha!! no d pra ver? no d pra sentir que a minha pintura no tem vida? -- E a ele jogou o pincel na mesa com um jeito meio, sei l, um jeito desesperado que, francamente, eu nunca tinha visto ele ter.
  Eu fico lembrando dessa cena e fico pensando uma coisa: ser que um artista pode amar tanto o trabalho dele que... deixa eu ver como  que eu explico isso... pode amar tanto o trabalho dele que, se ele acha que o trabalho no tem vida, ele tambm no quer mais ter?
<60>
  A outra lembrana que fica vindo na minha cabea  a de um passeio que a gente fez logo depois de resolver que ele ia me ensinar a pintar.
  Fazia sol. Ainda era frias. A gente saiu pra fora da cidade, levando tinta, pincel e papel. Parou perto de uma floresta. A minha me preparou sanduche. No cho tinha um matinho novo, bem curto. A gente sentou nele e comeu (no o mato: o sanduche).
  Em volta era tudo verde. O meu Amigo ento falou de verde: forte, fraco, verde de tudo que  tom. Mostrou tinta, mostrou mato. Comparando. A gente pintou. Deitou no cho. Olhou pra nuvem. Ele dormiu, roncou, sonhou. Acordou e disse: sonhei com a Clarice. Fiquei espantado dele falar assim nela. Falou feito sonhando; olhando pro cu; o brao assim pra trs, fazendo travesseiro. 
  Contou dos dois se namorando. Ela foi a primeira namorada dele e ele dela. Brotinho ainda. Que vontade que eles tinham de ver logo o tempo passando pra poder casar! Custou a passar. E os dois 
<61>
esperando. At que um dia passou. Mas a ningum casou: eles comearam a brigar: ela reclamava que ele tinha se apaixonado pela poltica, que, em vez de gostar s dela, ele tinha dado pra gostar de tudo que  brasileiro igual, que, em vez de ficar namorando ela, ele ia pra comcio, pra reunio, pro norte, pro sul, de tanto andar pelo Brasil um dia ele at sumiu: prenderam ele. Eu perguntei:
  -- Como  que  a gente se apaixonar por poltica?  assim feito a gente se apaixonar por uma garota?
  --  e no . -- E em vez de me explicar ele continuou contando o que ele estava falando, que ficou preso muito tempo escrevi sempre pra Clarice, mas ela nunca recebeu carta nenhuma. E a ela pensou que ele tinha se esquecido dela. Um dia, de tanto cansar de esperar, ela acabou casando com outro. E teve filho e tudo. E s no ano passado eles se encontraram de novo. De repente, puf! um esbarro na rua. Ficaram se olhando sem nem acreditar. Vendo que tinha passado tanto tempo. E que eles continuavam se gostando 
<62>
igualzinho. A eles quiseram de novo se namorar, mas a o meu Amigo ficou de olho fechado e eu pensei que ele tinha dormido outra vez.
  Eu gosto de ficar lembrando disso. Era to bom a gente ali deitado junto da floresta, conversando aquela conversa de homem. Olhei pra minha mo enquanto ele ficava ali de olho fechado: estava suja de tinta que nem a dele. Achei bom tambm ter mo igual. Fiquei esperando. E ele acabou contando o resto da histria:
  -- Depois, cada vez que a Clarice vinha me visitar eu pedia tanto pra ela largar tudo e ficar comigo. Mas ela sempre dizendo que no. Sabe o que que ela falava? que eu era um homem dividido em trs paixes: paixo por ela, pela pintura e pela poltica. -- Me olhou: -- Mas no era por causa disso que ela no ficava comigo no; era por causa do filho dela, eu sei. 
  -- Mas quando eu vejo poltico falando na televiso eu acho aquele negcio to complicado, to chato: como  que pode virar paixo?
  Ele sentou. Acendeu o cachimbo na calma. Eu sentei tambm pra escutar. Mas ele acabou s dizendo:
  -- Poltica  mesmo uma coisa complicada. -- E pronto. Igualzinho como aquele dia que eu contei pra ele a histria do vestido vermelho da Janana. E a ele comeou a me ensinar outra vez tom de verde, e no resto do passeio todo a gente s falou de tinta e prancheta e pincel.

               ::::::::::::::::::::::::

Segunda-feira

<66>
  Essa noite as trs voltaram. As tais: as figuras do sonho.
  Eu fico at pensando se daqui pra frente elas vo morar no meu sono, e cada vez que eu quiser sonhar elas resolvem me visitar.
  As trs chegaram que nem da ou-
 tra vez: juntinho. Mas dessa vez estavam de roupa verde. (Um verde igualzinho ao bluso verde que o meu Amigo usava pra pintar). Mas nesse sonho, sabe, em vez de uma ser fantasma e as outras coro, elas eram as trs paixes do meu Amigo Pintor.
<67>
  Cumprimentaram, sentaram e comearam a conversar. Tinham voz igual.
  Tudo que uma falava, as outras gostavam. E riam de riso igual.
  A, com aquele igual todo to dividido entre as trs, eu fiquei sem saber qual era a Dona Clarice, qual era a Pintura e qual era a Poltica.
  Quanto mais elas riam mais iam se espremendo uma na outra. Pareciam at uma s ali sentadas no sof. Que era estampado.
  De repente, eu resolvi perguntar se uma no tinha cime da ou-
 tra vendo o meu Amigo gostar das trs ao mesmo tempo.
  Uma caiu na gargalhada; a outra se espantou: mas a terceira fez cara de Dona Clarice e explicou:
  -- No princpio eu queria que ele gostasse s de mim. Eu tinha cime dela -- apontou -- quando ele ficava pintando em vez de me namorar, xi! eu ficava danada da vida.
<68>
  A segunda me olhou e fez cara de quem diz que bobagem ter cime do trabalho dele, no ? E a terceira continuou:
  -- Dela ento nem se fala! -- apontou pra primeira. -- Que cime tremendo quando ele comeou a viajar pro norte e pro sul atrs dela, dizendo que ia trabalhar pelo Brasil.
  A primeira fechou a cara:
  -- Em vez de ter cime devia trabalhar junto com ele: bem que o Brasil ia gostar.
  -- Pois .
  A as trs suspiraram igual. E pelo jeito ficaram pensando igual tambm. Afundadas no sof. Mas depois se endireitaram, e a Dona Clarice falou:
  -- Bom, mas isso foi antigamente. Depois eu vi que no dava p querer que ele gostasse s de mim.
  -- Ficava at parecendo que ele era to pequeninho por dentro que s cabia um amor, no ? -- a segunda falou. E a primeira disse logo:
  -- Pois .
<69>
  -- E a: pof! o meu cime acabou.
  -- Pof!
  -- Pof!
  E cada vez que uma dizia pof, abraava a outra. Uma coisa to engraada! eu at comecei a rir. Mas elas ficaram bem srias; e falaram assim pra mim:
  -- Com a gente amiga e junta dentro dele, o teu Amigo vai poder viver em paz.
  -- E toma nota: ele agora vai ser feliz.
  -- Feliz para sempre!
  Eu achei to boa essa notcia que me espremi no sof pra bater papo mais de perto. Mas a elas falaram:
  -- A gente no pode ficar: tem que namorar.
  -- E trabalhar.
  -- E politicar.
  Se levantaram dizendo um tchau igual; e foi s elas sarem que o meu sonho achou que tinha ficado muito vazio e pronto: acabou.
  Que pena! tava to bom sentar ali, sabendo que agora o meu Amigo vai ser feliz.

               ::::::::::::::::::::::::

Segunda-feira de tarde

<72>
  Quando eu vinha voltando da escola a Roslia disse que a amiga do meu Amigo estava l.
  A Roslia  a filha do sndico; a amiga  a Dona Clarice; e *l*  o apartamento do meu Amigo Pintor.
  Eu disse *ah* ? com cara de quem no estava ligando, mas meu corao tava pulando: eu vi logo que eu tinha que falar com a Dona Clarice e perguntar pra ela o que eu andava querendo saber.
  Entrei no elevador ensaiando depressa na cabea um jeito legal de falar. Teve que ser depressa porque o elevador chegou logo e eu achei que era chato ficar ali parado na frente da porta do meu Amigo sem apertar a campainha nem nada. Apertei. A Dona Clarice 
<73>
demorou pra abrir a porta e ento deu tempo de ensaiar de novo.
  Ela abriu a porta, eu abri a boca e o relgio tocou. Tipo da coisa que no estava ensaiada e saiu feito 'tivesse; e eu, que tinha ensaiado to bem a minha fala, empaquei.
   incrvel como aquela batida -- uma s, era uma meia-hora -- me deixou assim... sei l. Primeiro eu fiquei contente: o relgio batendo era barulho certo do meu Amigo, parecia at que ele tinha voltado. Mas em seguida eu pensei nele como naquele ltimo dia eu tinha visto: morto pra sempre. E a aquela batida do relgio ficou batendo dentro de mim de um jeito assim to vermelho, to difcil de entender que -- quem diz que eu me lembrava do que eu tinha que dizer? Ainda mais que a Dona Clarice estava ali me olhando e usando um vestido cor-de-saudade fortssima.
  Eu olhava pro vestido e pra dentro da sala. Pro vestido e pro relgio. Pro vestido e pra cadeira que o meu Amigo sentava. A a Dona Clarice perguntou:
<74>
  -- Voc quer entrar?
  -- No. Eu s queria saber por que que voc mentiu pra mim. -- (Tudo diferente do que eu tinha ensaiado!)
  A gente se olhou. Eu expliquei:
  --  que... voc disse que ele tinha morrido feito todo mundo um dia morre. Mas todo mundo no resolve morrer de propsito, resolve?
  -- Voc no quer entrar? 
  Entrei s um pouco. E como ela continuava sem falar eu acabei dizendo:
  -- Eu *precisava* saber direito o que que aconteceu com ele.
  -- Por que que voc diz que eu menti?
  -- Ento no mentiu? ento a notcia j no se espalhou e agora todo mundo j no est sabendo que ele se matou?
  Ela foi indo pro fundo da sala. Parou junto da janela. Ficou espiando pra fora. Gozado: o meu Amigo tambm pensava assim de p, com jeito de quem est s olhando pra rua.
<75>
  -- Foi porque voc acha que eu sou criana? -- eu falei (depois que eu achei que ela no ia mais responder). -- L em casa eles acham que esse assunto no  coisa de criana. -- Ela me olhou. -- Voc tambm  assim? foi por isso que voc mentiu pra mim?
  -- No. Eu tenho um filho da sua idade e eu converso tudo com ele.
  -- E de suicdio? vocs tambm falam?
  Ela fez que sim.
  -- Voc disse pra ele que o meu... que o seu... que o nosso Amigo se...
  -- Disse.
  -- E por que que no disse pra mim?
  Ela virou pra janela. E como no desvirava, nem falava mais nada, eu acabei desabafando:
  -- Pra eu no ficar achando tambm que foi por sua causa que ele fez isso? -- Ela olhou de-
 pressa pra mim e eu fiquei assim... como  que eu vou explicar? assim metade sem jeito e metade com raiva. Pra ser franco, esse pedao da raiva eu venho sentindo todo 
<76>
dia. Desde que o sndico foi l em casa e comeou essa fofoca de que foi por causa dela que...
  -- *Tambm* por qu? -- ela perguntou. -- Esto achando que tudo isso aconteceu por minha causa?
  -- Esto.
  -- E voc acredita?
  Fiquei quieto (ela tambm no ficava?) olhando pros quadros que o meu Amigo pintava.
  Ela veio pra perto de mim e me olhou fundo no olho:
  -- Eu no sei por que que ele fez isso. Eu vinha achando ele triste; um dia desses eu perguntei se ele andava assim por causa da poltica ou do trabalho, e foi a que ele me disse que nunca ia ser um grande pintor: quanto mais ele trabalhava mais ele via como era difcil transmitir numa tela o que ele queria dizer. Voc, que era tambm amigo dele, voc tambm no achava ele triste?
  Fiquei pensando. s vezes eu achava sim. Outras vezes eu pensava que no era tristeza: era s o jeito quieto que ele tinha.
<77>
  Ela no esperou eu responder; continuou:
  -- Ele queria que eu deixasse a minha famlia pra casar com ele. Mas eu andava sem coragem. E a gente ento combinou de esperar. Eu penso nisso tudo, mas continuo sem saber por que que ele fez isso. -- Nessa hora eu achei que ela ia chorar. Mas ela falou: -- A gente era assim,  -- juntou dois dedos. -- Na ltima vez que eu estive com ele, a gente combinou uma poro de coisas: um filme que ia ver, um passeio que ia fazer, combinou de ficar sempre assim -- mostrou de novo os dois dedos juntos, e eu vi que a mo dela estava tremendo; a fala tambm: saa toda tremida e cada vez mais baixo. -- Quando eu voltei ele tinha se matado. Na carta que ele me deixou ele s pintou um buqu de flor. Margarida e cravo, que ele sabia que eu gostava. E embaixo, em vez de uma explicao, s tinha um pedido de desculpa; uma coisa... to esquisita, to curtinha... s assim: desculpa, sim? Mais nada. -- Voltou pra janela e ficou de costas pra mim.
<78>
  Eu fiquei parado feito ela. Ento o meu Amigo resolvia ir s'embora assim da vida sem explicar por que nem pra ela? a gente que sacasse... e pronto?
  No deu mais pra ficar ali olhando quadro que ele pintava, cadeira que ele sentava, relgio que daqui a pouco ia bater de novo e doer. Tchau, eu disse. E fui saindo sem nem me lembrar mais do que eu tinha perguntado. Mas ela chamou o meu nome:
  -- Cludio! -- E veio pra perto de mim. -- Eu sei como voc gostava dele. Quando a gente gosta assim,  muito difcil viver com uma lembrana que a gente no entende. Que nem eu estou vivendo agora. Foi por isso que naquele dia eu menti. Achei que a minha mentira podia colar e que cada vez que voc lembrasse dele no ia ter que perguntar por qu? por qu?? por qu! Que nem eu estou sempre perguntando.
  A gente se beijou e eu vim m'embora.

               ::::::::::::::::::::::::

Sbado

<80>
  A semana passou toda de um jeito que eu no gostei nada. Pelo seguinte: cada vez que eu me lembrava do meu Amigo ele vinha junto de *por qu*? *por qu*? Tipo do pensamento ruim!
  E ainda por cima fez um tempo horrvel. Chuva, chuva. Chuva e aquele nevoeiro que a gente no v nada l fora quando espia da janela, e que j disseram que nevoeiro pior que em Petrpolis s mesmo na Inglaterra. Ento eu fiquei na fossa. Achei que nunca mais ia parar de chover e que nunca mais eu ia poder lembrar do meu Amigo sem achar to ruim.
  A, na quinta-feira de manh na escola, eu fiquei olhando pro meu caderno aberto e pensei: puxa, essas 
<81>
duas folhas vm to juntinhas! mas  to fcil separar uma da ou-
 tra: s puxar. E puxei. A folha soltou. Escondi ela atrs do caderno. Depois juntei ela de novo com a outra. Separei. Juntei. Separei. Brinquei. Juntei. E de repente me deu vontade de experimentar a mesma coisa com a lembrana do meu Amigo: separar *Amigo*  pra c e *por qu*? pra l.
  Experimentei. Era s pensar:
  Por que que ele fez assim to de propsito pra morrer?
  Por que que ele no explicou nada na carta?
  Por que que ele foi preso?
  Por que que ele no me disse o que que ele ia fazer?
  Por que que ele queria botar vida no que ele pintava e no botava? e cada *por que* que ia aparecendo na minha cabea junto com o meu Amigo eu experimentava puxar, arrancar, esconder bem escondido l no fundo da minha cuca.
<82>
  Experimentei dois dias. At pra andar na rua eu andava assim: um-dois, um-dois.
  1 era Amigo
  2 era Por qu?
  1 era Pensa!
  2 era Esconde!
  Pensa! Esconde!
  Pensa! Esconde!
  Pensa! xi! deu um enguio na minha cabea que eu vou te contar. Ontem ela at fez um pouco de barulho de motor que a gente liga e no pega.
  Mas hoje, quando eu acordei, tinha um azul incrvel entrando na minha janela. E tinha um sol que era uma coisa linda de to amarelo, um amarelo que quando eu experimentei olhar pra ele na cara ele foi se alaranjando.
  Lembrei da pintura que o meu Amigo tinha feito no fim do lbum: era tambm um cu assim de vero.
<83>
  Abri o lbum pra comparar o azul que ele tinha pintado com o azul que eu estava vendo.
  O meu Amigo tinha juntado as duas ltimas folhas do lbum pra poder pintar bem grande aquele cu.
  Fiquei olhando e olhando o jeito que ele tinha juntado as duas folhas. Olhei tanto que acabei at sabendo que eu no tinha nada que separar *Amigo* pra c e *por que* pra l. O que eu tinha era que fazer o que ele fez com as fo-
lhas e com o azul do cu: juntar. Bem junto.
  E ento juntei.
  Agora, quando eu penso no meu Amigo (e eu continuo pensando tanto!) eu penso nele inteiro, quer 
<84>
dizer: cachimbo, tinta, por qu? gamo, flor que ele gostava, morte de propsito, por qu? relgio batendo, amarelo, por qu? bluso verde: tudo bem junto e misturado.
  E comecei a gostar de pensar assim.
  Acho at que se eu continuo gostando de cada *por qu* que aparece, eu acabo entendendo um por um.

Fim

               oooooooooooo

<87>
<p>
Pra voc que me l 

  *Se voc me conhece do Feito  Mo, ou de Retratos de Carolina, ou do novo Tchau* (digo *novo* porque faz pouco tempo que ele veio morar na minha Casa-editora e, de chegada, resolvi mudar o visual dele), voc j deve ter se habituado com esse jeito que eu peguei: aproveito os momentos em que estou aqui com voc, na intimidade deste espao que  s nosso, pra vir te contar -- em forma de introduo, ou em nota de explicao, ou at em feitio de final de histria -- um ou outro episdio do meu convvio com o livro que voc tem na mo.
  Livro  feito a gente: tem uma histria. Independente da histria que ele nos conta, ele tem vida prpria, uma histria l dele. Em geral, leitor nenhum fica sabendo dessa 
<88>
histria. A no ser que o autor do livro resolva contar. O que pouco acontece: quando a gente estuda literatura aprende que os escritores no devem se intrometer na vida dos personagens e livros que criam. Tornou-se uma regra que eu tenho desrespeitado. E continuo desrespeitando ao entrar pelo meu livro adentro pra te contar episdios da vida dele, feito eu venho te contar hoje aqui. 
  Leitora apaixonada que eu sempre fui, nunca parei de descobrir novas emoes no objeto da minha paixo. Uma delas me parece que no  muito comum nos leitores: a emoo de imaginar --  medida que eu vou lendo um livro -- no s a histria que o livro est me contando, mas a histria do prprio livro. No  que eu faa um ensopadinho de tudo l no caldo da minha imaginao, no  bem assim; eu leio feito todo mundo l: me concentrando pra imaginar os personagens e os episdios que o li-
 vro vai me entregando. Mas -- numa pausa que eu dou na leitura, ou na hora que fecho o livro pra atender a outra ocupao -- no  s a lembrana dos personagens que fica chamando a minha imaginao de volta,  tambm a curiosidade pela histria daquele livro: como  que tem sido a vida dele? desde o dia em que se tornou guardio da histria que uma escritora escreveu pra ele contar? Por onde ele andou? Quantas vezes mudou de cara? De casa? de cidade? De pas?
<89>
  s vezes fico pensando o quanto-e-de-que-jeito essa curiosidade que eu tenho pela histria dos li-
 vros que leio me empurrou, no s pra querer publicar meus prprios livros e, assim, ficar conhecendo, tintim por tintim, os caminhos que eles tm que percorrer at chegar a voc, que me l, mas me empurrando tambm pra esse hbito que peguei: vir te contar um pedao -- talvez um superpedacinho s -- da histria do livro que voc pegou pra ler.
  A histria d'O Meu Amigo Pintor comeou h mais de vinte anos, numa poca em que Peter e eu resolvemos ir morar na Boa Liga -- um stio encravado nas montanhas do Estado do Rio, onde, aos vinte e seis anos, comecei a construir uma casa com a inteno de fazer dela o meu sempre-refgio. Durante um tempo a Boa Liga cumpriu o papel de refgio, depois, durante vrios anos, assumiu a funo de lazer de fim de 
 semana e frias. Agora, estava sendo ensaiada como morada permanente.
<90>
  J fazia um ano que estvamos l quando, um dia, me apareceu uma amiga em companhia de uma mulher de meia idade, atraente e culta, que estava muito interessada em conversar comigo sobre um projeto de trabalho. De chegada se declarou surpreendida de nos ver morando num lugar to isolado assim e, em seguida, comeou a falar, entusiasmada, de seus projetos profissionais. Ela comandava -- com muita competncia, conforme vi pelos livros que me trazia, e que abriu sobre a mesa -- uma editora voltada para a produo de livros artsticos, e estava empenhadssima num projeto, ainda bem recente, de produzir uma coleo chamada Arte para Crianas (que, posteriormente, teria continuidade na coleo Arte para Jovens) -- colees que casavam a pintura com a literatura. Tinha selecionado alguns escritores pra escrever histrias que acompanhariam trabalhos dos nossos melhores pintores, e j tinha escolhido os casamentos que ia fazer. Como achava que a minha escrita combinava bem com a pintura abstrata da *Tomie Ohtake*, queria que eu escrevesse uma histria para acompanhar a reproduo de nove telas da 
 Tomie. Espalhou sobre a mesa cpias das nove imagens.
<91>
  Fiquei olhando as figuras abstratas. As cores intensas. O bom gosto dos livros. A produo ca-
 prichada, limpa, cuidadosa. Era tudo bem planejado e bem realizado. Ento, foi at meio chateada que tirei meu olho da Tomie e de-
 clarei que no sabia fazer livro de encomenda. Ela se espantou: 
  -- No sabe?
  -- Bom, no  que eu no saiba,  que eu no gosto. Eu s gosto de escrever o que, na hora, eu estou sentindo falta de escrever, ou que eu t *sentindo falta* de escrever.
  -- Mas voc nunca escreveu por encomenda?
  -- Alguns anos. Quando ganhava minha vida escrevendo pra rdio e televiso.
  -- Ento?
<92>
  -- Pois : acho que enjoei de escrever por receita, por frmula, por ndice de audincia, por aquilo tudo que -- salvo algumas raras oportunidades naqueles veculos -- nos tolhe a liberdade pra criar. No dia em que optei por literatura eu me prometi que ia escrever do *meu* jeito e no mais do jeito-que-tem-que-dar-audincia.
  -- Mas  exatamente pra voc escrever do *seu* jeito que eu vim at aqui, e que escolhi a pintura abstrata da Tomie: no so formas definidas: voc pode imaginar o que quiser a partir destas imagens. Deu uma pausa: 
  -- A nica encomenda, entre aspas,  que a histria no seja longa; tem que ter no mximo... (**)
  Achei at graa:
  -- Mas eu j te disse que o meu tempo de televiso acabou: no quero mais escrever minhas cenas em tantas linhas ou limitar meus personagens a tantas laudas; s de pensar que eu vou ter que frear o embalo de um episdio que estou querendo contar, pra ele caber certinho numa medida que algum vai me dar, j me tira toda a vontade de inventar. Te agradeo demais o convite, mas no d pra aceitar. -- Juntei livro, papel,
::::::::::::::::::::::::::::::::::
<R+>
<F->
     (**) No me lembro mais quantas pginas ela mencionou.
<F+>
<R->
elogios, e entreguei tudo pra ela.
<93>
  Ela nem piscou: empilhou argumentos, contou casos, e sugeriu datas pra ver o livro pronto. Declarei que tinha desaprendido *tambm* a escrever com data marcada pra entrega, e que...
  -- Foi uma simples sugesto: *voc*  que vai marcar a data.
  -- ...e que o meu momento de vida tambm no era favorvel pra assumir compromissos, uma vez que Peter e eu tnhamos acabado de tomar a deciso de experimentar morar em Londres.
  --  mesmo? Vocs vo morar l? Ih, mas que timo! eu adoro aquela cidade!
  -- Eu tambm, mas com essa mudana toda...
  -- No tem problema nenhum, eu espero. Eu sei esperar pelas coisas que eu quero. Londres vai te inspirar. 
<94>
Tenho certeza, que chegando l, voc vai logo escrever o livro.
  E, como a noite j ia crescendo, e elas tinham compromisso no Rio, l se foram embora, levando a promessa de que eu ia fazer uma tentativa.
  Foi um perodo de grande transformao na minha vida: da buclica atmosfera na montanha, l na largueza da Boa Liga, agora estvamos morando num pequeno *flat* em Kensington, no corao de Londres. Foi l que recebi a notcia de ter ganho, com os seis livros que tinha publicado at ento, o Prmio Hans Christian Andersen. Como era a primeira vez que uma escritora fora da 
 Europa/Estados Unidos ganhava o prmio -- considerado o mais prestigioso da Literatura Infanto-Juvenil -- fui alvo de um verdadeiro bombardeio por parte dos editores europeus, curiosos pra avaliar as possibilidades da modesta obra desta escriba aqui. A mudana pra outro continente, um prmio daqueles, 
<95>
a morte da Margarida (eu chamava a minha me de Margarida; me anunciaram a morte dela num telegrama que chegou juntinho do outro, anunciando o Prmio Andersen). Tudo isso junto deu um n na minha cabea. Querendo abrir espao pra nova vida que comeava pra mim o n deletou coisa  bea, inclusive a promessa feita de escrever uma histria pra acompanhar nove imagens da Tomie Ohtake. 
  Um dia, bateu l no flat, uma pequena cobrana: "Ento? nosso livro j est pronto?"
  Meu deus! e eu que nunca mais tinha me lembrado dele... 
  Fui procurar por onde andavam as imagens da Tomie; depois de muita procura e encontrei, e deixei elas por perto pra ir olhando-e-olhando, querendo imaginar o livro-que-o-livro-ia-ser. Mas era tanta coisa rolando!...
<96>
  Mais um tempo passando.
  L pelas tantas, outro lembrete: "Ento? nosso livro est saindo do forno?"
  Que forno que nada! Fazia um frio danado em Londres e eu vivia embrulhada em tudo quanto  dvida que voc possa imaginar uma pequena escritora tendo na hora de lidar com editores de to variados idiomas.
  Foi nessa fase da minha vida que experimentei fazer o que, em geral, fazem os escritores que so alvo do interesse editorial: entreguei tudo que  dvida, hesitao e chateao pra uma agncia literria resolver. Primeiro, escolhi uma agncia espanhola; depois, uma sueca; depois, uma em Portugal e, mais tarde, outra no Brasil. Mas acontece que eu no sou competente pra lidar com intermedirios: acordei numa manh enevoada, pensando de um jeito muito meu: se o filho, quer dizer, se o livro  meu, eu tenho mais  que aprender a tratar dele. E da pra frente, comecei a tratar diretamente com as editoras que me publicavam.
<97>
  Tempo passando.
  E no dia que chegou uma pergunta bem curta, mas com cara de ser a ltima ("o livro sai ou no sai?"), empurrei minha mesa de trabalho contra a parede, fechei a porta, espalhei as cores da Tomie na mesa e -- s tendo a parede branca pra fixar o olho (na hora que ele saia de uma cor) -- fiquei me concentrando (horas!) pra ver o que que aquelas cores arrancavam de dentro de mim. 
  E elas arrancaram o nome do meu irmo que morreu (Cludio);
arrancaram a lembrana de um amigo muito querido que se matou; 
arrancaram lembranas de Petrpolis, de nevoeiros, de conversas na sombra das rvores;
lembranas da minha adolescncia, quando me deixaram de corao esborrachado...;
lembranas de amigos sofrendo perseguies na poca da ditadura;
lembranas que iam se misturando, se impregnando das cores pra onde meu olho voltava sempre.
<98>
  Quando me levantei fui direto pra cama dormir. Estava cansada; me sentia toda doda de ecos, lembranas... Mas confiante: sabia que tinha engravidado do livro-
 -que-ia-ser.
  Acordei no dia seguinte com o personagem Cludio j pronto dentro de mim, contando -- em forma de cartas pra Tomie Ohtake -- a relao dele com um amigo pintor.
  Em menos de um ms a histria estava pronta (o que, pra mim,  um *record*, uma vez que reescrevo vrias vezes meus textos). O nome que dei ao livro foi: Sete Cartas e Dois Sonhos.
  O livro foi produzido aqui no Brasil com o esmero com que a editora que me procurou tratava suas colees. Pelo que me contaram, depois, alcanou uma bela repercusso no limitado setor que percorreu.
  Eu continuava to absorta na minha nova vida que pouco escrevia, to envolvida eu andava no relacionamento com todas aquelas editoras europias: passei um tempo sem tomar conhecimento da vida que 
<99>
Sete Cartas e Dois Sonhos estava tendo. Ento fico te devendo o que que rolou nessa primeira infncia do livro.
  Um dia voltei pro Rio. Aps morar trs anos em Londres conclu que no podia viver longe do meu cho Brasil. E comecei uma vida dupla, que dura at hoje, l e c, l e c, mas que, atravs dos anos, foi ficando muito mais c do que l.
  Uma vez no Rio, fui assuntar a vida que meus livros andavam levando. E depois de ver por onde eles andavam e por onde eles no andavam (vendo que alguns mal andavam...) fui examinar meus contratos.
  Fiz esta pausa pra poder ficar aqui parada, querendo te imaginar.
<100>
  Nos encontros que, s vezes, eu tenho com meus leitores num evento qualquer, sempre me fazem perguntas a respeito de como  que rola essa histria de contratos editoriais e de direitos autorais. Trocando em midos: como  que rola a velha histria da grana: d pra viver de livro? eu vivo dos meus direitos autorais?  verdade que so meus personagens que pagam minhas contas no fim do ms?
  A curiosidade nessa rea  grande, as vezes se torna at embaraosa. Ento -- foi o que eu conclui depois da pausa -- por que que eu no vou te falar aqui (um pouquinho s que seja) de como  que eu encaro essa histria de grana no que diz respeito  grande paixo da minha vida: LIVRO.
  Eu era uma recm-adolescente quando saquei, por vrios dramas financeiros acontecendo  minha volta, que: sem independncia econmica eu no teria nunca a 
<101>
liberdade necessria para administrar a minha vida. E eu queria, desde que eu me lembro de mim eu quis ser capaz de administrar a minha vida e poder decidir: eu vou por aqui; no, eu no vou por ali, "s vou por onde me levam meus pr-
 prios passos", como diria o poeta.
   medida que fui andando pela vida, tropeando daqui, acertando o passo de l, mas sempre perseguindo o *meu* caminho, fui me dando conta de que a crtica que me faziam, desde que eu era deste tamanhinho (a de que eu era um ser impaciente e inquieto demais) estava certa. Eu era mesmo. Mas dentro do meu mar de inquietao e impacincia, um belo dia enxerguei claro uma ilha calma: a da escrita. Mexer com letras -- quando pequena, formando desenhos; depois, formando palavras -- me fazia ficar quieta. Mais tarde, quando assumi de vez minha vocao de escritora, percebi por inteiro o quanto eu era igual a todo mundo: eu *tambm* tinha o meu reservatrio de pacincia, onde a gente vai se abastecer na hora que necessita. Quando vi que escrever, antes de mais nada, era uma necessidade que eu tinha que satisfazer, 
<102>
aprendi o caminho pra chegar ao meu reservatrio: ele foi construdo na tal ilha -- a da escrita.  pra l que eu navego pra me aquietar. E me surpreendo ao ver quanto eu posso extrair do reservatrio sem esgotar as reservas que ele tem: fico dias inteiros numa boa, tirando uma palavra daqui, botando ela ali, trazendo uma outra de volta, experimentando uma outra l; e, quando canso, ainda me demoro olhando pra elas, tentando enxergar o pargrafo (quem sabe a pgina?!) que eu gostaria de ter escrito.
  Quando anoitece, navego de volta, e  s pisar terra firme que encontro de novo a impaciente-inquietao.
  Cad meu reservatrio? Cad?
  Mas no adianta querer ele  mo: est alicerado l na ilha...
  Te escuto pensando, tudo bem, mas o que que a ilha tem que ver com a grana?
<103>
  Pois , t parecendo que eu peguei o caminho errado. Mas  que eu tive que dar um pulinho l no reservatrio antes de vir te falar em contratos editoriais...
  Chegou um dia que eu conclui: j que eu quero me dedicar tanto a livro eu tenho mais  que viver de livro, seno vou ficar a vida toda escrevendo o que os outros querem que eu escreva e no o que eu t a fim de escrever.
Nos papos que a gente batia -- meus colegas de profisso e eu -- vinha sempre  tona a eterna dvida,  possvel se viver de escrever livro? Em geral, a resposta era: s na base do *best-seller*. S que escrever um *best-seller* no  comum no vasto mundo editorial. A maioria dos livros vive feito a maioria das pessoas: modestamente. Grandes proezas? altos vos? s na hora de sonhar.
  Mas faz tempo, muito tempo, que eu achei dentro de mim uma certeza: quem quer *mesmo* se dedicar s artes tem mais  que se resignar a viver modestamente, dando o melhor de si, se possvel em tempo integral, at o dia de -- e *se* chegar o dia de --, por mrito prprio, ou por favorecimento dos deuses (como foi, em boa parte, o meu 
<104>
caso), passar a viver mais confortavelmente de seus direitos autorais.
  Naqueles debates iniciais que eu mantinha com meus colegas de escrita, muitas vezes me chamou a ateno a relutncia em *no* aceitar os contratos oferecidos. Lutar por prazos contratuais curtos para o caso do casamento no dar certo?
  -- Ah, no! vai ser chato, eles no vo assinar.
  Lutar por percentuais mais altos nos direitos autorais?
  -- T na cara que eles no vo topar.
  Lutar sobre o direito de opinar  respeito disso ou daquilo?
  -- Imagina! nem pensar.
  -- E a questo do adiantamento? como  que...
  -- J est estabelecida em contrato.
  E pronto, logo assinavam.
  Te confesso que a minha vontade *tambm* sempre foi essa: assinar de uma vez o contrato, e pronto. Se tem coisa que at hoje me d um pouco de vontade de morrer  
<105>
ter que discutir clusulas contratuais. S que... a vontade de viver de livro foi sempre mais forte. Ento, eu tive mais  que me iniciar  no aprendizado das reivindicaes.
  No meu segundo livro (Anglica), quando comecei uma parceria muito amigvel e agradvel com a Editora AGIR (parceria que durou quase trinta anos, e que desfiz quando quis criar minha pr-
 pria editora), ao saber que meu livro j estava prontinho para impresso, pedi pra dar uma ltima olhada no texto. Fui avisada de que, quelas alturas dos acontecimentos, qualquer alterao ia a-
 carretar transtornos e custos. Mas, prontamente, me mandaram as provas. Comecei a ler. Fiquei paralisada: minha maneira coloquial de escrever (tantas vezes desrespeitando regras gramaticais e, com isso, acarretando crticas, eu sei) tinha sido transposta para um "portugus gramaticalmente correto" que o revisor, cumprindo o seu papel, achou por bem impor ao meu texto. O monte de 
<106>
horas que eu tinha passado l na ilha, tentando imprimir na minha escrita o ritmo do falar carioca, agora me aparecia com outra cara, a fim de que preposies, pronomes e verbos ocupassem o lugar de respeito que lhes era devido...
  Pra te ser bem franca: perdi a cabea. Marchei pra editora de provas na mo. O corao aos pulos. Um medo danado de comprar aquela briga, to iniciante eu ainda era no chamado mundo dos livros. E to alterada eu estava, que nem me lembrei de me anunciar: enveredei pela editora adentro, cheguei junto da mesa do diretor e declarei: -- Eu escrevi *assim* (botei o meu texto na frente dele) e no *assim* -- joguei as provas na mesa. -- Eu no aceito isso! Eu... -- A voz falhou. Minha alterao virou pnico, meu deus! ser que eu ia dar o vexame de desatar a chorar? ainda mais chorar de raiva?! Consegui me controlar. Mas no falei mais nada pra no arriscar voz tremidinha. Fiquei ali de p. Braos cruzados.
  -- Sente-se, por favor -- o Sr. Fromm falou com tranqi-
 lidade.
  Sentei. Respirei fundo pra aquietar meu corao.
<107>
  Sem nenhuma pressa, ele comeou a comparar pgina por pgina. E depois de um tempo longo (pra mim infindvel) se pronunciou da maneira pausada e ritmada pelo sotaque alemo que ainda tinha.
  -- Tem razo: a senhora escreveu assim, e no assim. Eu tambm no concordo que se corrija a maneira de um escritor se exprimir. Fique tranqila, faremos tudo de novo, seu livro sair da maneira como foi escrito. -- Me olhou por cima dos culos. -- Salvo os erros ortogrficos, naturalmente... -- E pareceu dar a entrevista por encerrada. 
  Me limitei a dizer muito obrigada, e sa. Andando depressa. Bem depressa. No mais to de-
 pressa. Mais devagar. Devagar. Bem devagar. Comecei a me sentir contente. Cada vez mais contente com o reconhecimento recebido naquela primeira reivindicao. Sentindo que, tendo que reivindicar novamente um direito que eu acreditava meu, j ia ser menos difcil; na certa eu no ia ficar to emocional, esquentar tanto feito eu tinha esquentado. Eu ia reivindicar meus direitos, sim. Apressei o passo. Claro que ia, u! E, j esquecida da raiva e do
dizer muito obrigada, e sa. Andando depressa. Bem depressa. No mais to depressa. Mais devagar. Devagar. Bem devagar. Comecei a me sentir contente. Cada vez mais contente com o reconhecimento recebido naquela primeira reivindicao. Sentindo que, tendo que reivindicar novamente um direito que eu acreditava meu, j ia ser menos difcil; na certa eu no ia ficar to emocional, esquentar tanto feito eu tinha esquentado. Eu ia reivindicar meus direitos, sim. Apressei o passo. Claro que ia, u! E, j esquecida da raiva e do 
<108>
medo-pnico que eu tinha tido de *contrariar* o diretor, o revisor, a grfica e sei l quem mais, ensaiei at passo de dana na rua. Sem nem poder imaginar o quanto eu ia ter que reivindicar -- aqui no Brasil, mas, sobretudo, no exterior -- at comear a viver, como venho vivendo h muitos anos, de meus direitos autorais.
  Da mesma maneira que no aceito ver minha escrita mexida sem autorizao prvia (muitas vezes me perguntando o quanto alteraram meus livros em lnguas que no entendo a letra, quanto mais a msica! Tipo coreano, hebraico, chins), tambm no sei relevar o fato de uma editora se esquecer de cumprir clusulas que eu considero essenciais.
  Aprendi a reivindicar clusulas que estabelecem prazos contratuais curtos. E tive tambm que aprender a no hesitar na retomada de meus livros -- uma vez esgotado o prazo inicial do contrato -- se as "regras do jogo" so 
<109>
negligenciadas. Felizmente, aqui no Brasil, foram poucas as vezes que isso aconteceu. E, de cada vez, me doeu muito a retomada do livro.
  No caso de Sete Cartas e Dois Sonhos tive que respirar fundo: admirava demais o trabalho que aquela editora produzia, e o livro tinha ficado belssimo. Mas, mais importante do que ter o meu nome associado ao nome cintilante de Tomie Ohtake, numa coleo to linda quanto a que foi produzida, era tarefa que eu tinha de tentar ser coerente com as minhas convices.
  Outra coisa doda tem sido o aprendizado pra dizer *no* diante do pedido (sempre to charmoso!) para usar meus textos no teatro, no rdio, em livros didticos, em publicaes especiais, em vrios tipos de evento, mas... *sem* pagamento de direitos autorais. s vezes esse pedido  feito para eventos ou publicaes que esto sendo patrocinados por empresas ou bancos poderosos. Quando o caso  esse, at que nem me di dizer *no*. Mas quando -- por exemplo -- um grupo jovem, apaixonado por teatro, pega meu texto pra levar pro palco, um dia se 
<110>
lembra que eu existo, vem correndo buscar minha autorizao, vai logo explicando que o grupo trabalha com emoo-
 -e-paixo-mas-grana-no, a sim sempre me di dizer *no*. Nossa! Que decepo (puxa, Lygia, e a gente pensou que voc era uma mulher legal...), quanta revolta! (mas a gente j ensaiou a pea...), quanta perplexidade! (mas a gente t difundindo a tua obra... voc no fica contente de contribuir pra todo esse mutiro nacional de fazer nosso povo mais ligado no livro? No teatro? Na cultura?...).
  Fico. Fico, sim. 
  Mas vou ficar muito mais contente no dia que todos entenderem melhor o que que significa, para quem vive da escrita, ter (ou *no* ter) seus direitos autorais assegurados.
  Aqui comea um captulo meio triste na histria do livro que voc tem na mo: o texto tinha se divorciado das 
<111>
imagens da Tomie, agora estava sozinho. E sem casa pra morar. Quer dizer, ele foi morar comigo, ficou l num canto, mas o que todo livro quer  viver nas livrarias e no assim to sozinho na casa de uma escritora que mal olhava pra ele.
  *Mal olhava*, no: eu olhava. S que eu no sabia o que que eu ia fazer com ele. Neguei o pedido para ele voltar pra coleo de arte, e agora, quando via ele ali to sozinho e desconsolado, eu sabia que meu dever era tratar de arranjar uma casa editora pra ele ir morar. S de l  que ele ia poder sair de novo pras livrarias, pr'aqui, pr'acol, enfim, pra vida que todo livro quer ter. s vezes eu notava na cara dele um rancor contra mim: por que diabo eu tinha tirado ele daquela vida to glamourosa de coleo de arte, tanta celebridade l dentro! Nessas horas eu me impacientava: eu sei, eu sei, eu sei! minha casa no vai resolver a tua vida, mas voc no vai ficar muito tempo aqui, no. (Mal podia eu imaginar que -- muitos anos depois -- eu ia criar uma casa editora e que ele viria junto com meus outros livros morar de novo comigo).
<112>
  At que um dia, ruminando mais uma vez a vida intil que Sete Cartas e Dois Sonhos estava levando l em casa, resolvi -- um tanto hesitante, pois no sabia se a minha resoluo ia prejudicar o livro -- pedir licena ao Cludio pra fazer uma alterao na maneira dele narrar os episdios: em vez de contar, atravs de cartas para a Tomie, tudo que tinha acontecido, ele ia contar diretamente pro leitor a histria do relacionamento que ele teve com o seu amigo pintor. Quando acabei de pensar esse pedido (de licena) nasceu o novo ttulo que o livro ia ter:

O MEU AMIGO PINTOR

  A partir da, a histria do livro tem sido bem movimentada. Ele que, como a maioria dos li-
 vros, adora viajar, correr mundo, nunca mais me olhou com cara feia: da minha casa foi mandado pra uma casa editorial na Espanha; de l viajou pela Europa e Escandinvia, foi pro Oriente Mdio, aprendeu a falar chins, foi pros Estados 
<113>
Unidos, percorreu a Amrica Latina, e aqui no Brasil foi publicado pela Editora Jos Olympio, onde esteve at agora, saindo de l ms passado pra completar suas andanas na casa de sua autora.
  No meio de todo esse movimento, um belo dia o livro sentiu na pele uma outra transformao: se encolheu daqui, se dilatou dali, se contorceu mais adiante, e de repente, pegou formato teatral:  que, l pelas tantas, eu dei a O Meu Amigo Pintor -- tambm -- a vestimenta adequada pra ele se mostrar no palco. Em inspirada produo e encenao de Bia 
 Lessa, o livro foi  cena com nome abreviado: O Pintor. E viveu momentos que ele lembra at hoje com emoo. Inclusive recebeu os dois maiores prmios teatrais da poca, O Molire e o Mambembe; e levou muita gente ao teatro pra acompanhar a amizade do Cludio e o Pintor.
  Agora, a histria d'O Meu Amigo Pintor abre um novo captulo: estamos, fisicamente, juntos, na minha casa editorial. E, como esse novo episdio na histria do livro est recm-comeando, eu ainda no posso te adiantar nada.
<114>
   claro que eu podia continuar te contando um monte de peripcias que o livro viveu,  medida que se desdobrava em novos idiomas. Mas te confesso que sinto um certo cansao de relembrar tudo que foi reivindicao necessria pro *meu filho* andar tanto por a afora... E tambm, puxa vida! hoje perdi a conta, acabei te escrevendo demais (deve ser porque cedinho, fui l pra ilha...)
  Mas antes de me despedir, deixa eu ainda te contar uma coisa: recebi semana passada uma carta, ou melhor, um bilhetinho de uma leitora. Que no pede resposta, no conta onde mora, nem o nome que tem:
<p>
          "Lygia
          Carrego O Meu Amigo Pintor 
          para onde eu vou.
           No me separo dele. 
          Sou apaixonada por ele." 
          E se assina: 
          "Uma sua leitora."

  Fiquei olhando pras letras no papel. Querendo imaginar a mo, o rosto, a vida de quem agrupou as letras. E, de repente, senti que aquele bilhete to simplinho, to escrito em folha arrancada de papel pautado, justificava amplamente todas as lutas que tiveram que ser ganhas pra chegar at voc, que me l.

At nosso prximo encontro.

Lygia

Rio, Maro de 2004.

               xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxo

Fim da Obra